Como Criar e Manter Peixes de Viveiro com Sucesso
Criar peixes em viveiros de terra ou tanques escavados é uma das atividades mais recompensadoras e, potencialmente, lucrativas do setor agropecuário e do hobby de aquarismo em larga escala. No entanto, o sucesso na piscicultura não depende apenas de colocar os peixes na água e alimentá-los. Existe um ecossistema complexo que precisa de equilíbrio.
Seja você um produtor focado em espécies comerciais como o Tambaqui e a Tilápia, ou um entusiasta de peixes ornamentais em grandes lagos, o manejo correto é o divisor de águas entre a produtividade e o prejuízo. Neste artigo, vamos mergulhar nos cuidados essenciais para manter seu viveiro saudável e seus peixes em pleno desenvolvimento.
1. A Preparação do Viveiro: O Berço de Tudo
Antes mesmo de pensar nos alevinos, o foco deve estar na estrutura. Um viveiro mal preparado é um convite para doenças e fugas.
- Limpeza e Calagem: Após cada ciclo de criação, o viveiro deve ser esvaziado e deixado ao sol para secar (vazio sanitário). A aplicação de calcário agrícola (calagem) é fundamental para corrigir o pH do solo e da água, além de eliminar parasitas remanescentes.
- Adubação: Para estimular o crescimento do fitoplâncton (pequenas algas que servem de alimento natural e oxigenam a água), utiliza-se adubação orgânica ou química controlada. Água levemente esverdeada é sinal de produtividade!
2. Qualidade da Água: O Ar que o Peixe Respira
Na piscicultura, dizemos que “não criamos peixes, criamos água”. Se a água está boa, o peixe cresce.
O Triângulo da Sobrevivência: pH, Oxigênio e Temperatura
- Oxigênio Dissolvido: É o fator mais crítico. Os níveis devem ser monitorados, especialmente nas primeiras horas da manhã, quando o oxigênio está mais baixo. O uso de aeradores é indispensável em criações intensivas.
- pH da Água: O ideal para a maioria das espécies de viveiro gira entre 6,5 e 8,5. Variações bruscas estressam o animal e baixam sua imunidade.
- Amônia e Nitrito: Restos de ração e fezes geram amônia, que é altamente tóxica. Uma boa renovação de água ou um sistema de filtragem eficiente é vital para manter esses níveis próximos de zero.
3. A Escolha e a Estocagem dos Alevinos
Não adianta ter um viveiro perfeito se a genética do peixe é ruim. Compre alevinos de fornecedores certificados.
- Aclimação: Jamais jogue os peixes diretamente no viveiro. Coloque os sacos plásticos boiando na água por cerca de 20 a 30 minutos para equalizar a temperatura. Depois, adicione aos poucos a água do viveiro dentro do saco antes de soltá-los.
- Densidade de Estocagem: Um erro comum é colocar peixes demais em pouco espaço. Isso gera competição por alimento, falta de oxigênio e estresse. Respeite o limite de biomassa por metro cúbico ($kg/m^3$) recomendado para cada espécie.
4. Nutrição Estratégica: Além da Sobrevivência
A ração representa cerca de 60% a 70% dos custos de um viveiro. Manejá-la bem é economia e saúde.
- Ração de Qualidade: Utilize rações extrusadas (que flutuam). Isso permite que você observe o peixe comendo e identifique se há sobra, o que evita a poluição do fundo do tanque.
- Frequência: Peixes jovens (alevinos) precisam comer várias vezes ao dia em pequenas porções. Peixes adultos podem ser alimentados de 1 a 2 vezes.
- A Regra dos 15 Minutos: Se após 15 minutos ainda houver ração flutuando, você está oferecendo comida demais. Diminua a dose na próxima vez.
5. Manejo Sanitário e Prevenção de Doenças
Peixe doente raramente se cura dentro de um viveiro grande; a chave é a prevenção.
- Observação Diária: Peixes boiando na superfície (“boquejando”), nado errático, manchas na pele ou barbatanas roídas são sinais de alerta.
- Controle de Predadores: Pássaros, jacarés e até cobras podem dizimar sua população. Use telas de proteção ou cercas se necessário.
- Bioseguridade: Evite compartilhar redes e equipamentos entre viveiros diferentes sem antes desinfetá-los com cloro ou salmoura.
6. O Ciclo do Verão e do Inverno
A temperatura influencia diretamente o metabolismo dos peixes (animais pecilotérmicos).
- No Calor: O metabolismo acelera, eles comem mais, porém o oxigênio na água diminui. É hora de ligar os aeradores.
- No Frio: O metabolismo desacelera. Muitos peixes param de comer. Se você continuar jogando a mesma quantidade de ração, ela irá apodrecer no fundo, causando picos de amônia. Reduza a alimentação em dias frios.
7. Despesca e Transporte: O Momento Final
O manejo de retirada deve ser feito com cuidado para não ferir o peixe (o que causa perda de valor de mercado) ou estressar os que ficarão no tanque.
- Faça a despesca preferencialmente nas horas mais frias do dia (madrugada ou início da manhã).
- Mantenha os peixes em “depuração” (água limpa sem comida) por 24 horas antes do transporte para limpar o trato digestivo e melhorar o sabor da carne (retirada do gosto de barro ou “off-flavor”).
Conclusão
Cuidar de peixes de viveiro é uma ciência que exige paciência e observação constante. Ao equilibrar a qualidade da água, a nutrição correta e o manejo sanitário, você garante animais saudáveis, um crescimento acelerado e um ecossistema equilibrado. Lembre-se: o viveiro é um reflexo do cuidado do piscicultor. Dedique tempo à manutenção e os resultados virão à tona, literalmente!